Curso: Doutorado em Teologia
Componente curricular: Teologia pública num estado laico

Docente: Rudolf von Sinner[1]

Período: 2019/01 Discente: Jeverson  Nascimento

Resenha crítica

Soares e Passos-Teologia Pública no Brasil

Soares and Passos-Public Theology in Brazil



Jeverson Nascimento [2]



Resenha de: SOARES, Afonso Maria Ligorio e PASSOS, Joao Décio, Teologia Pública (São Paulo-Paulinas 2011). 328 p. ISBN 9788535627831.

            O presente livro é uma coletânea de artigos publicados em 2011, com o intuito de aproximar a sociedade do ambiente acadêmico e da sua produção acadêmica; Ele é dividido em quatro partes, sendo a 1ª os cursos superiores de teologia no Brasil, na 2ª parte teologia e profissão, na 3ª conjunturas e experiências, na 4ª parte   discernimentos.

Um dos assuntos mais importante destacado pelo livro, são as mudanças ocorrida nos últimos séculos onde as ciências mudaram, e nessas mudanças a teologia foi retirada do rol das ciências, sendo ela abandonada e esquecida, dessa forma a teologia ficou restrita apenas ao ambiente interno das igrejas, deixando de ser uma teologia académica, tornando-se apenas uma teologia confessional restrita aos seminários e as igrejas.

O fato de tornar a teologia confessional criou segundo o livro uma barreira entre a teologia e as demais ciências, que só foi rompida após o século XX, quanto se dá o retorno da teologia como ciência, abrindo assim um viés para o diálogo entre teologia e ciência, um outro destaque relevante no livro  é a aceitação da própria teologia como ciência pelo próprio Estado e órgãos regulamentadores, estabelecendo para ela mecanismos epistemológicos o que a tornam uma ciência que contribui com a sociedade.

Um outro grande problema apresentado no livro  é a dificuldade de diálogo que se encontra no contexto brasileiro, o ”Estado tem dificuldade em  acolher a teologia como conhecimento legítimo como as demais ciências”[3], é importante ressaltar que da mesma forma a igreja encontra dificuldades para absorver a ideia de um diálogo entre Igreja e Estado, pois a  maioria das Igrejas defendem a ideia que Estado e Igrejas  devem ser separados,  portanto há uma barreira, que precisa ser derrubada para que, haja um diálogo entre Igreja e Estado, e dessa forma a teologia possa ser amplamente reconhecida, respeitada e aceita como ciência.

            Em seguida o livro trata, do reconhecimento da teologia como saber universitário, as articulações entre as dimensões confessional e profissional. No texto estão presentes os desafios que a teologia enfrentou em busca do seu reconhecimento no Brasil, momentos em que viveu de forma não reconhecida pelo Estado, até o dia em que conseguiu ser reconhecida como um saber importante para a sociedade e ter seus Diplomas reconhecidos. Segundo o livro a teologia enfrenta desafios mediante a sua normatização pelo Estado como profissão, a questão chave apresentada no texto é adversidade de religiões com suas teologias e doutrinas diferentes, que poderão ser prejudicadas pela normatização da teologia, pela criação de conselhos federais e estaduais como já estabelecidos em projetos de leis apresentado no livro, tais ações poderiam engessar a teologia deixando de fora outros modos de pensar teologia existentes no contexto Brasileiro. Na sequência vem teologia e profissão, apresenta uma breve história da teologia no Brasil, nela estão contidos os desafios de uma  teologia intereclesial, são apresentados também os problemas da institucionalização da teologia, são levantados questionamentos sobre se a teologia deveria ser tratada como profissão, já que há uma tentativa de torná-la profissão no Brasil, sendo assim há uma suposição de que, se a teologia for apenas uma profissão ficará engessada, os questionamentos continuam sobre a importância da regulamentação profissional da teologia, destacando teologia em três partes: Sistemática, Fundamental e Prática.  A Sistemática no lugar institucional que abrange o público dos fiéis com o objetivo pastoral, desafio o perfil e o mercado. Em segundo lugar a Fundamental, seu lugar é na universidade seu público é o pesquisador, o objetivo é investigação, seu desafio é teórico.  Em terceiro lugar a prática e o seu lugar na instituição informal, o público profissional, o objetivo da ação é o desafio curricular.

            Neste mesmo capítulo; são apresentadas questões acerca das tentativas de tornar a teologia profissão, por conta desta ação, são destacadas as PLS 4922-05, 114 -05, e na Câmara dos Deputados de número 2407-07. Tais Projetos de Lei, visam tornar a teologia profissão, criando Conselhos Federais, Estaduais para administrar e regulamentar toda profissão. Em seguida o relatório que desaprovou e levou ao arquivamento destes Projetos de Lei. Por fim é feita a defesa que a teologia deverá agir por si própria, livremente em conjunto com suas igrejas, denominações que atuam de formas diferentes.

Outra parte importante é a teologia no contexto da Europa, mais precisamente na Alemanha, constam ali um resumo das instituições de teologia presente na Alemanha, tanto católicas como protestantes, o primeiro destaque relevante é a relação entre Estado e Religião, muito diferente do Brasil que é considerado um Estado laico. Já a Alemanha anda de mãos dadas com a Religião, são apresentados dois motivos no livro: “1º motivo, a monarquia depois a 2ª Guerra Mundial. Outra questão importante apresentada no livro é a Constituição Alemã, que garante em seus artigos 136, 137, 138, 139, 141 a criação e a manutenção de universidades teológicas pelo Estado; bem como, a prática docente do ensino religioso nas escolas públicas, por portadores dos diplomas de Teologia. Além destes artigos, existe a lei básica e outras normas referentes a questões religiosas, que garante a prática e a relevância da teologia no velho continente”[4] .

Em seguida é feita uma breve analise da teologia no contexto da Itália, onde nos anos de 1873 passa a ser administrada pela Autoridade Eclesiástica, deixando de ser administrada pelo Estado, nesse contexto o Vaticano decreta para alunos católicos a proibição  da matricula em faculdades de teologia consideradas  públicas (mantidas pelo governo), permitindo somente que os alunos se matriculassem  em entidades ligadas diretamente ao vaticano, tal ação torna inviável na Itália a manutenção das faculdades teológicas públicas, pois nelas não haviam mais alunos,  tal ação acaba por fechar definitivamente as cátedras de teologia nas universidades públicas.

Da mesma forma na sequência, o livro apresenta um breve estudo sobre a teologia nos Estados Unidos da América, com o título Deus na terra do dólar. É uma breve investigação sobre história e cultura, onde é apresentado o relatório sobre as religiões presentes no território americano,  neste relatório aparecem em primeiro lugar os cristãos,  que são em sua grande parte maioria, na sequência os agnósticos, mórmons,  judeus, budistas,  muçulmanos, hindus, movimento nova era e por fim as religiões nativas, se discute sobre religião e política, sobre as academias e suas estruturas, sobre a teologia no contexto americano, as universidades das quais nelas estavam as cadeiras teológicas, sendo elas Harvard, Columbia Yeale Chicago, por último e não menos importante se discute as certificações destas universidades e na conclusão final desta parte a rigorosa abordagem acadêmica racional que serve para a prática das igrejas neste contexto.

Em continuidade é apresentado um breve resumo sobre os desdobramentos da teologia em Portugal em 1907, nesta parte do livro é possível compreender como se deu o afastamento da teologia das universidades públicas pelos conflitos gerados entre Estado e Igreja. A teologia em Portugal na esfera pública, era mantida na universidade de Coimbra, porém o Estado Português deixa de mantê-la, causando assim um rompimento entre Igreja e Estado. Desse momento em diante o Estado acaba por fechar definitivamente as portas para teologia. Acontece nesse continente exatamente o que aconteceu em outros países, a teologia é considerada apenas das igrejas. Os poucos cursos que ainda existiam eram em seminários confessionais, mantidos pelas igrejas. Nessa parte do livro também é apresentado o retorno da teologia em 1968, quando surge reconhecida pelo Estado a Faculdade de Teologia Católica Portuguesa em Lisboa. Para finalizar, são apresentados cursos ministrados nas universidades e seus graus de formação, todos os cursos com o intuito de formar professores para o ensino religioso em Portugal, conhecidos como (EMRC).

Já em seguida, encontramos mais alguns artigos, são eles: Lugar e Função da Teologia numa Ecologia dos saberes, esse artigo está dividido em a ecologia dos saberes neutro e a teologia como produção cultural, são apresentados os desafios dessa produção cultural. Em  outro artigo, Teologia no Universo Científico e a Especificidade Epistemológica o artigo discute a necessidade de identificação do sujeito que crê, que reflete o que crê, o teólogo como objeto de estudo, a teologia e os desafios do contexto atual, os questionamentos dentro deste artigo dizem que discutir “o papel da teologia dentro do universo científico e a especificidade epistemológica foi o objetivo principal proposto por todo seu trabalho.

Teologia para o Brasil Hoje, são ensaios sobre as bases para a construção de um cristianismo solidário, relação entre campos eclesial e o acadêmico, no texto aparece o estado da questão e nele espiritualidade e religiosidade como elementos para elaboração de uma ética comunitária, é discutida a importância do diálogo entre teologia católica e a teologia protestante, para  o autor “entre todas as ciências a teologia é a mais bela, a que mexe profundamente com o coração  e com a cabeça, a  que mais se aproxima da realidade humana e que proporciona, a mais clara visão da verdade e é  procurada por todas as ciências”[5]. Ainda assim diante de todos os desafios, suas considerações finais, relatam sobre a importância de saber superar as dificuldades e barreiras entre as teologias, precisa-se crer, que a teologia tem sua origem divina e que ela pode ser parte integrante da sociedade humana.

Por fim, o artigo Teologia Pública no Brasil, apresenta o surgimento do conceito de teologia pública que é atribuído em 1974, com todos os avanços os diplomas de mestrado e doutorado em teologia e os de ciências da religião só começam a ser reconhecidos no ano de 1980. A teologia acadêmica no Brasil, enfrenta diversos obstáculos desde seu reconhecimento em 1999, onde recebe seu status acadêmico. No livro se discute os problemas enfrentados pela teologia nos estados brasileiros, os pareceres do MEC para algumas faculdades de renome. Em seguida são apresentados os artigos: “teologia na universidade”,  “o que o ocidente uniu pós modernos não separe”, os temas voltaram-se para a construção interdisciplinar do logos teológico, a discussão sobre o rumo transdisciplinar da teologia,  para concluir, a relevância e pertinência do discurso da teologia nas universidades, a importância de assegurar a teologia como crítica.



 Considerações

           

A obra em questão foi muito bem construída, ela tem uma excelente formatação dos textos, foram bem escritos, estruturados e com contribuições relevantes para a área da teologia. Seus destaques mais importantes estão nas leituras sobre a teologia brasileira, que é apresentada de forma concisa e carregada de elementos históricos. Foi feita uma breve avaliação da teologia em contexto brasileiro, seu caráter inovador se dá pelo fato dos textos trazerem à tona as dificuldades enfrentadas pela teologia no brasil, bem como os desafios, que ainda estão pela frente, os principais destaques do texto são a história da teologia em continentes europeus, em solo americano e no Brasil. No texto não há aspectos que não convencem, ele foi elaborado de forma científica, clara, por uma diversidade de autores, muito bem preparados. Discussões como a regulamentação da teologia no brasil  e o reconhecimento do MEC, tornam importante e relevante o livro, porem observa-se que ainda há muito para ser discutido sobre os temas presentes  no texto, contudo todas as abordagens podem devem ser consideradas útil para o exercício dos ministérios religiosos, tendo em vista, que a teologia abrange uma diversidade de religiões,  dessa forma a avaliação final do texto é, uma avaliação positiva, portanto recomenda-se o livro para todo leitor, estudante, acadêmico, professor e líder religioso da área da teologia, história, educação e demais áreas de estudos.







[1] possui Licenciatura (1993) e Doutorado em Teologia (2001), ambos pela Universidade de Basiléia, Suíça, da qual também recebeu o Prêmio Amerbach pela tese de destaque, em 2002. De 2003 a 2019 foi professor de Teologia Sistemática, Ecumenismo e Diálogo Inter-Religioso na Faculdades EST (antiga Escola Superior de Teologia) em São Leopoldo/RS, onde também foi Pró-Reitor de Pòs-Graduação e Pesquisa (2007-19) e diretor fundador do Instituto de Ética (2014-19). Mantém vínculo de professor titular permanente dos PPGs ainda no primeiro semestre de 2019. Em março de 2019, assumiu docência como professor adjunto de Teologia Sistemática na Pontifícia Universidaded Católica do Paraná (PUCPR). Foi pesquisador da Fundação Nacional Suíça de Pesquisa (SNF), com um projeto sobre a contribuição das igrejas brasileiras para a cidadania (2003-06). Fez pós-doutorado como membro residente do Center for Theological Inquiry (CTI) em Princeton, New Jersey (EUA) em 2006-07, e como fellow do Lichtenberg-Kolleg em Göttingen (Alemanha), em 2011. É livre-docente pela Universidade de Berna, Suíça (2010). Integra a Associação Nacional de Programas de Pós-Graduação e Pesquisa em Teologia e Ciências da Religião (ANPTECRE), da qual integrou e presidiu a Comissão Científica, a Sociedade Evangélica de Teologia (GET, Alemanha), a Sociedade Alemã de Missiologia (DGMW), e a Theologial Society for Southern Africa (TSSA).Preside a Comissão de Educação e Formação Ecumênica do Conselho Mundial de Igrejas (CMI) e integra o Comitê Nacional de Respeito à Diversidade Religiosa da Secretaria de Direitos Humanos do Governo Federal. Seus campos de pesquisa são: teologia pública, ética política, bioética, hermenêutica ecumênica e inter-religiosa, mobilidade e pluralismo religiosos, teologia contextual e ecumênica e doutrina da trindade. Em 2013 e novamente em 2016, foi nomeado professor extraordinário da Universidade de Stellenbosch na África do Sul. É bolsista de produtividade em pequisa do CNPq e foi bolsista pesquisador experiente CAPES/Humboldt de 2013-15, na Universidade de Göttingen (2013-14) e München (2014-15 e 2015-16).

[2] Possui Licenciatura e Especialização em Filosofia - Faculdades Entre Rios de Piaui (2016) e graduação em Teologia pelo Centro de Ensino Superior de Maringá (2014). pós-graduação em Psicopedagogia Clínica - FACEI (2018). Mestre em Teologia - Faculdades Batista do Paraná (2017). Doutorando em Teologia pela PUC de Curitiba PR. Atualmente é bolsista da CAPES e pesquisador do Centro de Teologia de Santa Catarina. Tem experiência na área de teologia, com ênfase em práticas ministeriais, atuando principalmente nos seguintes temas: divergências e convergências, Deus, métodos de interpretação bíblica, bíblia sagrada e filosofia.


[3] P 12
[4] P152.
[5] P258.

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